“Quanto Mais Quente Melhor” se passa na Chicago dos anos 1930. No filme, a dupla de amigos Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon) estão, mais uma vez, tentando manter seus empregos como músicos. Quando, acidentalmente, presenciam um massacre cometido por um dos mais perigosos membros da máfia local. Essa é a premissa de

Correndo risco de morte, e ainda precisando de um emprego, eles assumem um disfarce como as adoráveis instrumentistas Josephine e Daphne. Dessa forma, se infiltram em uma banda de jazz exclusivamente composta por mulheres, indo com elas para a Flórida, onde pretendem se refugiar.

No entanto, como se manter sua verdadeira identidade em segredo já não fosse difícil, eles ainda enfrentam outros obstáculos. Entre eles, a atração do milionário Osgood Fielding III por Daphne e a paixão instantânea da dupla pela atraente vocalista da banda, Sugar Kane (Marilyn Monroe), a qual desenvolve uma amizade com eles. 

Agradáveis surpresas de um clássico

Quando decidi assistir essa famosa comédia dos anos 1950, puramente para conhecer uma das obras mais famosas da carreira de Monroe e da Era de Ouro de Hollywood, confesso que esperava por um humor datado, cheio de piadas galhofas e previsíveis. Porém, apesar de em alguns aspectos a obra ainda seguir aos moldes norte-americanos, em “Quanto Mais Quente MElhor”, me deparei com um filme divertido, cheio de camadas, que muitas vezes transcendem esses modelos e traz uma nova proposta para a época.

A começar pelos aspectos técnicos. Além de um roteiro inteligente, o qual irei explorar mais para frente, Billy Wilder traz um belo trabalho na direção, mesclando habilmente o que está dentro e fora de cena, para explorar a comicidade das situações e potencializar os diálogos entre os personagens. No entanto, o filme só atinge seu título de “timing perfeito” com a ajuda da eficiente montagem de Arthur P. Schmidt, que ordena as cenas com maestria, criando um ritmo delicioso para a obra.

A impecável dinâmica do elenco de Quanto Mais Quente Melhor

Além disso, outro fator que colabora para o sucesso da obra é a deliciosa performance do trio Marilyn Monroe, Tony Curtis e Jack Lemmon, os quais brilham tanto individualmente, quanto em conjunto, tornando o filme ainda mais divertido. Eu poderia escrever uma página inteira sobre a presença magnética que é Monroe nas telas, não só por sua beleza física, mas principalmente por sua atuação e sua voz divina. Mesmo interpretando o estereótipo da “loira bela e inocente”, ela adiciona uma personalidade única na personagem, tornando-a divertida e encantadora.

Já Curtis, exerce com maestria a função de interpretar três personagens completamente diferentes ao longo do filme, os quais são responsáveis por diversas cenas cheias de humor. Contudo, no contexto geral, acaba por fazer “mais do mesmo”, ao interpretar um homem galanteador disposto a fazer qualquer coisa para conquistar a mulher mais atraente do recinto. Isso dá margem para Lemmon roubar a cena com um timing incrível e uma atuação hilária, que nos faz sentir sua falta quando ele não está em tela.  

Analisando o roteiro

Nesse sentido, retorno ao roteiro do filme para explorar as reflexões que tive ao longo da obra. Em primeiro lugar, discordo de que seja apenas uma comédia sobre homens vestidos de mulheres, por conta das emoções que ela provoca. Ao inserir ação e romance em meio a comédia, “Quanto Mais Quente Melhor” faz o espectador torcer pelo sucesso dos protagonistas. Além disso, o filme aborda temas polêmicos e tabus que, para um olhar mais desatento, estão ali apenas para criar momentos de alívio cômico. No entanto, em uma análise mais crítica podemos observar como, na verdade, ele utiliza do humor para explorar esses assuntos.

Primeiramente, temos o fato dos protagonistas não se enquadrarem no estereótipo do “mocinho”, o que caberia tanto na ação, quanto no romance. Durante a busca desesperada por um emprego, Jerry sem qualquer hesitação propõe algo extremamente polêmico para a época: que ele e seu amigo se “transformem” em garotas para preencher as vagas. Jerry tenta convencer Joe da ideia, que inicialmente recusa, mas ao precisarem fugir dos mafiosos, rapidamente concorda com o plano. A atitude pode construir uma imagem de covardes, que deixam de lado qualquer orgulho ou incomodo em relação a esse papel, para fugirem e/ou ganharem o dinheiro que precisam. No entanto, também traz um questionamento sobre como, de certa maneira, essas ações abrem espaço para quebrar uma possível masculinidade tóxica.

“Quanto Mais Quente Melhor” permite olhar para questões de gênero

O assunto poderia se encerrar aqui, mas no desenrolar do enredo, a questão de gênero também se aflora, principalmente no personagem do Jerry. Ao longo do filme ele vai, a sua maneira, se descontruindo em relação ao disfarce e se encontrando nesse “novo corpo”. Até que se vê completamente à vontade com a situação, permitindo até que essa sua nova vida abra a possibilidade de ele se envolver amorosamente com outro homem e desfrutar da relação.

Além disso, em uma análise mais profunda, duas cenas me levaram a um questionamento sobre a identidade de gênero.

Uma análise dos atos

No primeiro ato, quando a dupla acaba de embarcar no trem e conhece Sugar, por quem Daphne/Jerry fica apaixonado, seu amigo Joe enfatiza que um relacionamento com ela poderia estragar o disfarce de ambos. Dessa forma, o obriga a se lembrar de que agora é uma garota. O que resulta no personagem repetindo com aflição a frase “sou uma garota!” diversas vezes quando está com a cantora.

Já no terceiro ato, acompanhamos Daphne/Jerry se divertindo com Osgood em uma animada noite de tango e ficando noiva do milionário. Porém, ao contar essa notícia para Joe, mais uma vez ele interrompe os desejos do amigo, falando que aquilo não seria possível, pois ele era um homem. O que resulta em Jerry repetindo com chateação a frase “Sou um garoto!”.

Colocadas em paralelo, essas cenas criam uma mensagem subliminar de como em ambas as situações, ele está infeliz por estar “preso” a um corpo e um gênero que não lhe possibilitam ter as experiências amorosas que deseja.

Por fim, temos a icônica cena final do filme. Nela, ao tentar convencer Osgood de que não podem se casar, Daphne/Jerry acaba revelando que na verdade é um homem. No entanto, o milionário apenas responde “Bem, ninguém é perfeito”. Além de hilária, a cena também dá a entender de que talvez o personagem já soubesse que Daphne era um homem disfarçado. Ele, talvez, só não se importava com isso, pois havia se apaixonado independente do gênero do outro.

“Quanto Mais Quente Melhor” é um filme refém de sua época

Ainda assim, como uma obra dos anos 1950, “Quanto Mais Quente Melhor” tem seus defeitos e ainda reforça alguns estereótipos. Como o assédio sexual, que é utilizado como uma piada, mesmo após os protagonistas sentirem na pele o constrangimento que as mulheres sofrem.

Por exemplo, a cena na praia, em que durante um banho de mar, Daphne/Jerry se aproveita da situação para assediar Sugar dentro da água. Ao ser questionada sobre o que está fazendo, responde “só um pequeno truque que aprendi no elevador”, em referência ao assédio que havia sofrido minutos antes pelo personagem do Osgood.

Além disso, o personagem do Joe também é carregado de estereótipos. Um jovem galanteador e vigarista, que na verdade é machista e coloca as mulheres em uma posição inferior e/ou de objeto. Mesmo que haja uma redenção ao final, quando ele finalmente fica com Sugar, a maneira que utiliza para conquistá-la coloca em xeque as boas intenções.

Reflexões pessoais sobre a obra

Porém, todas essas reflexões também me trouxeram uma dúvida, principalmente por conta da década em que o roteiro foi escrito. Até que ponto abordar esses temas foi uma estratégia proposital do roteiro? Ou todas essas reflexões só são possíveis ao ver o filme através um olhar atual, já familiarizado com essas questões e seus debates?

Em conclusão, “Quanto Mais Quente Melhor” me agradou e surpreendeu. Por se tratar de uma ótima comédia, cheia de grandes atuações, boas piadas e um enredo divertido, o filme provou válida sua fama. E possivelmente, é capaz de satisfazer a todos os gostos e gerar debates interessantes.


Trailer: Quanto Mais Quente Melhor

SINOPSE

Após testemunhar um assassinato da máfia, o saxofonista Joe e seu velho amigo Jerry improvisam um plano rápido para escaparem vivos de Chicago. Disfarçando-se como mulheres, eles se juntam a uma banda de jazz onde todos os membros são do sexo feminino e pegam um trem com destino à ensolarada Flórida. Enquanto Joe finge ser um milionário para ganhar Sugar, a cantora sexy da banda, Jerry vê-se perseguido por um verdadeiro milionário.

FICHA TÉCNICA

Estados Unidos |  121′ |  1959

Direção: Billy Wilder

Características: Película, P&B

Classificação: Livre

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