Estou Pensando em Acabar com Tudo é um suspense baseado no livro homônimo de Iain Raid, acompanhado por uma minuciosa direção de som e transições de cena, no mínimo interessantes. 

Charlie Kaufman, diretor do longa com estreia recente na Netflix, é conhecido (e amado por alguns) por seus filmes complexos – ou talvez apenas malucos. O cineasta assina o roteiro de filmes como Anomalisa e Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças: alguns o acham genial, outros prolixo. No entanto, não trago aqui explicação ou qualquer precisão, até porque o gostoso do cinema é, nem sempre, precisar fazer algum sentido.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças | Michel Gondry | 2004

O diretor nos leva mais uma vez a um romance sem futuro em Estou Pensando em Acabar com Tudo: a personagem Lucy (Jessie Buckley) começa a pensar em terminar seu relacionamento, justamente durante a viagem para conhecer os pais de seu parceiro Jake. É no momento que ela decide que quer acabar com tudo, que Kaufman mergulha no surrealismo, desde a linha temporal não linear até o exagero nos personagens.

Quanto mais a protagonista – que, inclusive, tem diversos nomes durante a trama – tenta fugir, mais ela se vê envolvida naquele relacionamento. Quanto menos ela quer estar próxima dele, mais ele procura caminhos para manter a relação. Quando chegam a casa dos pais de Jake, a mãe dele já espera na janela e acena. Ainda assim, ele decide que não devem entrar em casa – ou pelo menos, não ainda. Ao quebrarem essa expectativa na continuidade natural da cena – entrar e cumprimentar os familiares -, sem dúvidas, já temos uma pequena demonstração dos desdobramentos que se seguem, proporcionando uma narrativa cada vez mais caótica. 

Os pais estão em um estado eloquentes, beirando a loucura. Sentimos um desconforto entre o casal. Quase como um vício, Lucy reflete a todo momento sobre como seria sua vida se seguisse com Jake e esses momentos nos fazem aproximar dele. Como Kaufman mesmo revelou em uma entrevista, Lucy é o elemento que precisamos para poder conhecer Jake.

Então… seria Jake o protagonista? 

Estou Pensando em Acabar com Tudo | Charlie Kaufman | 2020

Ao longo do filme, acompanhamos o zelador de uma escola, a peça chave da narrativa. Ele observa o casal, quase como um voyeur. Ele é o pesadelo do casal. É o trauma da namorada e a neurose do namorado, ambos lutam incansavelmente contra esse personagem.

Quando Jake decide dar um fim a essa espionagem, ele vai de encontro a ele mesmo. Se abre um mar de possibilidades. Jake pode ser o zelador em sua versão mais jovem, recriando o que poderia ter sido sua vida ou um serial killer a caminho da sua próxima vítima.

A escolha de Kaufman por um road movie dá ênfase ao cenário caótico. Uma estrada possui diversos caminhos e é isso que o diretor explora: as diferentes possibilidades. Ele te oferece o benefício da dúvida.

Assista ao Trailer:

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