“Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil” (2019) é um documentário dirigido e roteirizado por Carol Benjamin, o qual conta sobre o período de 5 anos, em que seu pai, César Benjamin, com apenas 17 anos, foi ilegalmente preso e torturado pelos militares durante a ditadura no Brasil.

Através de uma série de fragmentos, como imagens de arquivo, trechos de entrevistas, matérias de jornal, documentos históricos e depoimentos de pessoas envolvidas no caso, como de antigos membros da Seção Sueca de Anistia Internacional e de familiares; a roteirista busca remontar o passado do pai, que sempre foi para ela um grande mistério, pois o mesmo não falava sobre o assunto. No entanto, Carol conheceu esse acontecimento através de sua avó paterna, Iramaya Benjamin, a qual teve um papel significativo na história de sua família e do país.

Os eventos se iniciam quando César, com apenas 15 anos, se filia ao movimento estudantil brasileiro, seguindo os passos do irmão mais velho, Cid Benjamin, que na época estava na faculdade e também havia se filiado ao movimento, onde em 1969, participou do polêmico sequestro do embaixador norte-americano e foi exilado fora do Brasil. Alguns meses depois, em 1971, César é preso na Bahia pelos militares por ser considerado subversivo ao governo.

A partir de então, a rotina e a vida de seus pais viram do avesso. Enquanto tentavam contato com o filho dentro da cadeia, cujas vistas eram raramente permitidas, eles também escreviam diversas cartas para a Anistia Internacional, em busca de conseguir ajuda para libertar César. Foi assim que Iramaya se aproximou de membros da Seção Sueca, que decidiram apoiar sua causa e entraram no processo, fazendo uma forte pressão sob o governo brasileiro. Somente a partir desse apelo é que César finalmente consegue sua liberdade, em 1976, mas se manteve em exílio na Suécia, junto de seu irmão Cid. Ambos só puderam retornar ao Brasil em 1979, quando foi instaurada a Lei da Anistia.

Seus pais ficam no Brasil, e sua mãe, agora com uma perspectiva diferente de mundo, se engaja cada vez mais na militância, tornando-se uma das fundadoras do Comitê Brasileiro da Anistia, o qual exigia “Anistia ampla, geral e irrestrita” para todos os presos políticos brasileiros.

O filme segue duas linhas temporais: a do passado, contando os fatos da prisão em ordem cronológica, e o presente, com Carol Benjamin buscando conhecer esses acontecimentos. É muito interessante ver como essas duas jornadas se complementam, criam uma ordem cronológica e linear e formam uma narrativa forte, trazendo para o espectador um turbilhão de sentimentos. Ao mesmo tempo em que é difícil assistir a essa história tão angustiante, é quase impossível tirar os olhos da tela, pois você quer saber qual será o desenrolar daqueles acontecimentos tão intensos.

Outra questão que salta aos olhos, é a presença magnética de Iramaya Benjamin durante o filme. Através de seus depoimentos, fica claro que ela não só teve um papel fundamental na libertação de César, como se tornou a porta voz do caso, mesmo após o desfecho do ocorrido. Por isso, grande parte do filme é narrado por ela, através de trechos de entrevistas, cartas e declarações que concedeu ao longo dos anos. Por esse motivo, o filme também acaba contando muito sobre a pessoa que foi Iramaya e sobre sua relação com os filhos, fazendo uma poderosa reflexão sobre a maternidade e a luta de uma mãe por justiça. Uma luta que pode até mudar o ano, a década e/ou o nome de seus protagonistas, mas que infelizmente continua presente no cotidiano brasileiro.

“O coronel era um cavalheiro, ele beijava minha mão e depois ia torturar o meu filho (…) o que eu ia fazer, ele tinha o meu filho nas mãos”.

E como se isso já não fosse forte o suficiente, Carol Benjamin ainda preenche essa obra com momentos particulares, pintando uma espécie de retrato de sua família, de maneira muito sincera e pessoal, escancarada para que o mundo todo possa ver. É muito emocionante observar ela destrinchar essas relações para contar sua história: uma mãe que lutou e mudou sua vida e suas convicções por conta dos filhos; uma filha que via o pai como um mistério e busca respostas sobre um passado enterrado por ele; uma neta que via na avó uma companheira inseparável, que lhe desvendava os mistérios do pai e também era um exemplo a ser seguido; e, agora uma mulher adulta, uma mãe que também quer lutar pelos filhos com unhas e dentes e quer evitar repetir os erros do passado, seja no âmbito familiar, ou no âmbito histórico-político.

Se pudesse definir “Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil” em três palavras, elas seriam: intenso, emocionante e necessário. O filme é um soco no estômago quando refletido sobre o momento político que estamos vivendo no país e isso fica evidente nas semelhanças entre situações que vemos acontecer no passado e se repetir atualmente.

Ao final, o filme se torna ainda mais atual e impactante com as palavras finais da diretora, as quais reiteram a grande mensagem que pulsa ao longo do documentário: não podemos esquecer nossa história, por pior que ela seja, não podemos nos calar, por mais difícil que seja falar e não podemos esconder os momentos sombrios que viveu o país, pois ao desconhecer e/ou esquecer o que aconteceu, corremos o risco de repetir os mesmos erros.


Trailer: Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil
Debate sobre o filme com Carol Benjamin, Leandra Leal, Marília Moraes e João Moreira Salles.

SINOPSE

Três gerações de uma família atravessada pela Ditadura Militar brasileira (1964-1985). Ao mergulhar em uma história pessoal e entrelaçá-la com a história do país, entre passado e presente, o filme investiga a persistência do silêncio como uma ferramenta de apagamento da memória.

FICHA TÉCNICA

Rio de Janeiro – RJ | Brasil | 88′ | 2019

Direção: Carol Benjamin

Características: Digital, P&B/Colorido

Diálogos: Português e Inglês

Legendas: Português

Classificação: 14 anos

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