Em uma casa na cidade de Los Angeles/EUA, um rapaz pede para uma mulher – Ana- que ela mostre a bunda. Entretanto, essa proposta não tem qualquer conotação sexual, pelo contrário. Chega a ser engraçado, especialmente porque vem depois de um monólogo da moça a metralhar frases típicas de quem está passando por uma crise existencial. Dessa atitude desesperada, surge o tom cômico: apontar partes do corpo para descobrir quem realmente é.

Ademais, a moça tampouco mostra a bunda para o rapaz. Na verdade, é o público que enxerga aquele momento, de forma distanciada, com a câmera fixada fora do apartamento. Esta sequência faz parte do quarto episódio da série mexicana Ana, sendo o primeiro em que realmente mostra o seu real valor.

Ana é transmitida no Brasil pelo Comedy Central

Ana é um retrato audiovisual autobiográfico?

A atriz mexicana Ana de la Reguera foi quem criou a série. “Ana” tem um tom confessional de uma estrela que faz muito sucesso em seu país de origem. Porém deseja alçar voos mais altos em sua carreira e conquistar o mercado audiovisual norte-americano. Prestes a completar quarenta anos, a moça se vê presa ao passado enquanto não consegue vislumbrar seu futuro. Assim, tem de conviver diariamente com Marisela – sua personagem mais famosa – da novela mexicana.

O retorno de Marisela é administrar sua vida de estrela no México, enquanto não consegue um papel interessante em Hollywood. Além dessa situação, sua vida pessoal também está complicada. Especialmente, porque tem de lidar com a mãe, extremamente possessiva e controladora. Ela não tem certeza se quer casar e ter filhos como as mulheres de sua família, quando completaram 40 anos. E para completar o seu quadro existencial, ela também questiona se ainda tem o direito de desfrutar de uma juventude tardia, como ela própria parece entender a sua situação.

Entre a fama e o anonimato


Logo no princípio do primeiro episódio, Ana explica que a criaram para ser perfeita. Contudo, ao longo dos dez capítulos, essa imagem é desconstruída aos poucos. O uso constante de maconha, a forma despudorada com que trata o sexo, a enorme gula. Todos são traços que não se esperam de uma princesa. Tampouco, de uma atriz facilmente reconhecível por sua fama.

Não por acaso, quando uma revista a fotografa fumando maconha na rua, o agente de Ana corre para que ela feche um contrato com uma empresa publicitária. Dessa forma, não perderia o trabalho. Algo que fatalmente aconteceria se a imagem de Ana fosse associada ao uso da erva.

No fim das contas, é a condição da imagem de estrela que a série tensiona a todo momento. O objetivo? Demolir a ideia de perfeição que leva. Em sua vida pública, a estrela de cinema e televisão, e em sua vida privada, criada para ser impecável. Mesmo a divisão que Ana faz entre as pessoas que “cagam bem” e as que “cagam mal”, faz parte de uma escatologia inesperada para alguém cuja imagem é uma obrigação comercial.

Ana e os estereótipos da mulher latina

A série se passa entre a Cidade do México e Los Angeles, as duas cidades em que Ana tem casas. A atriz vive fazendo essa ponte aérea. E, se no México, ela é a estrela, nos Estados Unidos poucos a conhecem. Afinal, o seu perfil de protagonista no país de origem é completamente diferente de seu perfil em Hollywood. Em seu caso, a indústria de cinema norte-americana se interessa por apenas um tipo: a mulher latina sensual. Basicamente, são esses os papéis que aparecem para a moça nos castings que costuma fazer em Los Angeles.

No 3° episódio, durante um almoço com a filha, o pai de Ana faz uma afirmação. Atrizes latinas nos Estados Unidos, como, Sofia Vergara e Penélope Cruz se destacam pela sensualidade. Sugerindo, então, que notariam Ana nos testes se ela colocasse silicone. O pai da moça expressa algo comum na vida da atriz: atrelar sensualidade aos papéis que disputa.

Mesmo que Ana de la Reguera se encaixe nos padrões de beleza estabelecidos, há uma necessidade específica para as mulheres latinas. Por não ser um exemplo do corpo da mulher latina, ela não é reconhecida por sua etnicidade. Nesse sentido, Ana funciona como um desabafo de uma mulher com consciência de quem ela é. Mas, que percebe o tempo inteiro como a julgam pelas pessoas em sua volta.

Questões familiares, entre a realidade e a ficção

Para dar um maior tom de confessionalidade, é o verdadeiro pai de Ana que atua. Assim como a sua irmã mais velha também representa ela mesma. A série é uma comédia de situação com muitos momentos de puro absurdo. Contudo, o que se destaca é a necessidade de Ana de la Reguera se despir ao máximo de qualquer verniz de estrela inalcançável. Assim, caracterizando-se como uma mulher absolutamente comum.

Não por acaso, no quinto episódio, Ana visita a sua mãe. Em uma estrutura freudiana clássica, é ali, no ventre materno que estão as raízes de seus problemas. Auxiliada por flashbacks, a série revela como o percurso de Ana foi enrijecido pela mãe, que escolheu para a filha o futuro que a própria gostaria de ter. La Nena, como a mãe de Ana é conhecida, é muito possessiva. Ela chega a colar os móveis de sua casa para que ninguém os mova e fiquem exatamente onde ela decidiu. Assim, a vida privada e profissional da moça se fundem, no sentido de que não foi ela que escolheu o caminho que está trilhando atualmente.

Ana é o oposto da “Maria do Bairro”

As novelas mexicanas fazem grande sucesso em todo o mundo e são o principal produto do audiovisual do país. Calcadas em uma perspectiva fartamente melodramática, as personagens femininas, muitas vezes, se caracterizam como mocinhas indefesas, apaixonadas e idealizadas. Essa perspectiva não é nova no México, mesmo o cinema clássico do país – matriz da narrativa melodramática – tinha em suas atrizes características muito claras de feminilidade.

Seja pela fragilidade de Dolores del Río (Maria Candelária) e Columba Domínguez (Manchada pelo Destino). Pelo destemor de Maria Félix (Rio Escondido), ou a generosidade de Marga López (Salón Mexico). As quatro atrizes são exemplos de protagonismo feminino no cinema mexicano. No texto estelar do país, essa característica não é nova. Inclusive, a indústria cinematográfica mexicana foi uma das que mais se destacaram por suas personagens femininas idealizadas.

Ana de la Reguera, então, se propõe a questionar um antigo padrão das atrizes mexicanas nos Estados Unidos e no próprio México. Ela possui a confiança de que pode interpretar múltiplos personagens, embora costumeiramente lhe neguem oportunidades. Uma atriz, contudo, nunca é o que se conhece dela. É isso que Ana de la Reguera parece gritar a todo o momento.

Seja o tipo de personagens que costumeiramente representam, seja a figura da revista de fofocas que mantém as narrativas amorosas na vida real, dando continuidade ao texto estelar, uma atriz não se encaixa nos perfis que escolheram para ela.

Desde o cartaz da série em que a própria Ana de la Reguera desenha um bigode falso em uma imagem de seu próprio rosto, a intenção de se desvelar da figura ideal toma forma. Tal qual ela agisse como um cupim, a destruir por dentro a cadeira de madeira dos poderosos star-system dos Estados Unidos e do México.

A abordagem do humor na série

Obviamente que um fator importante da construção do texto estelar é o próprio público que acompanha a vida dos artistas como a continuação de tramas novelescas e esperam deles tipos ideias. O vilão que faça sempre o vilão; o herói que faça sempre o herói; a mocinha que faça sempre a mocinha. Então, dá-lhe sequências como a que Ana anda pelas ruas de Los Angeles sem calças, irritada porque a depilação à laser em que estava não reconheceu os três pelos pubianos brancos que ela se deu conta que nasceram e fica completamente apavorada. Afinal, desconstruir a sua imagem de “princesa” ou de “estrela” também requer saber rir de si mesma, o que Ana de la Reguera faz com propriedade.

Esse humor absurdo e muitas vezes escatológico, cria momentos bastante divertidos. Entretanto, é também o calcanhar de aquiles, pois desenvolve momentos de pura fraqueza narrativa. É o que ocorre em boa parte do nono episódio que se constrói em uma tentativa (fracassada) de Ana de fazer com que seus três amantes não se encontrem. Embora, isso não leve a nada muito relevante na vida da personagem.

Ideias que se destacam na narrativa

Por outro lado, há duas sacadas muito bem utilizadas ao longo dos episódios. A primeira é o uso das redes sociais como uma nova plataforma de contato com o público, que faz Ana ficar deslocada. Ela cria uma rivalidade com sua fã, a jovem Latintuber, que consegue construir uma figura midiática superior a de Ana.

A outra ideia, são os números musicais que, muitas vezes, interrompem a trama, mas funcionam como uma forma de Ana de la Reguera se expressar. Especialmente, o belo número musical do quinto episódio em que a atriz finca os pés em sua mexicanidade e grita: “Que viva México”. Nesses momentos ainda, Ana de la Reguera parece completamente a vontade para debochar de sua própria imagem.

Ana sem amarras

Retornando ao início desse texto, a relação de se sentir a vontade com o próprio corpo ganha o maior destaque no quarto episódio. Neste, ela faz um bronzeamento artificial para ficar “mais mexicana”. A situação chega a ser ridícula, mas se torna uma necessidade para concorrer a um papel.

Entretanto, em uma conversa com o amigo Papasito (Carlos Miranda), decidem que ela crie uma caracterização real de uma mulher latina, como exigido pela personagem. Ana, então, faz o teste, mas não passa por não se parecer com uma mulher latina, ou seja, por não estar sensual o bastante. Na sala de espera, em que as atrizes aguardam a oportunidade de serem chamadas, encontram-se várias mulheres bastante parecidas, com roupas decotadas e calças justas. O oposto do que Ana gostaria de parecer. Ao ter a sua ideia negada, Ana vai embora chorando.

Na sequência seguinte, diz a Papasito que insiste em fazer um trabalho nos Estados Unidos, pois é ali, que todos irão se virar para assistí-la. O quarto episódio da série é novamente revelador. Pois é em tal episódio que Ana se desamarra completamente. E nos mostra porque a própria série existe. Seus dilemas deixam a aparência e aprofundam-se na essência. Tudo isso faz da série algo mais relevante do que as piadas absurdas e escatológicas, como a primeira vista poderiam fazer supor.

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