A Cracolândia é uma região da cidade de São Paulo onde se estabeleceu uma cena de uso e tráfico de drogas à céu aberto. A área é comandada pelo crime organizado e concentra centenas de moradores de rua. A região tem sido uma questão problemática para os governantes da metrópole há décadas.

Medidas tomadas para solucionar essa situação vão de projetos sociais, que enxergam uma falha educacional e uma questão de saúde pública, até o combate a criminalidade através da repressão estatal. Esse último parece ser a principal resposta para o documentário de Edu Felistoque. Que enxerga, acima de tudo, um problema de segurança pública e um convite perfeito para a justificação da guerra às drogas.

O protagonismo do documentário

Apesar de conter entrevistas com profissionais da saúde, policiais, ex-usuários de crack e ativistas, o documentário tem um ponto de vista claro. O argumento é feito pelo entrevistador (e, de certa forma, protagonista) Heni Ozi Cukier, cientista político e deputado estadual pelo partido novo. É ele quem comanda e conduz o debate.

E para justificar sua qualificação, o filme faz questão de exaltar sua formação estrangeira e seu trabalho com as nações unidas – uma vasta experiência no hemisfério norte que “generosamente” é aplicada nos seus projetos políticos para um país subdesenvolvido como o Brasil.

E caso não tenha ficado claro o protagonismo do herói, uma legenda nos créditos finais informa o espectador de seus nobres feitos na câmara municipal com base na pesquisa realizada antes e durante o longa-metragem. Se o número de campanha fosse mencionado já poderia ser material para o horário eleitoral.

Morador da cracolândia sendo filmado pela equipe do documentário.

Um retrato da violência na cracolândia

A primeira metade da obra se dedica completamente a questão da criminalidade. As imagens chocantes de pessoas fumando e fazendo loucuras sob o efeito do crack (como serrar um fio de poste elétrico) são todas feitas a distância, por câmeras de segurança ou tomadas aéreas. Tudo é acompanhado de uma trilha sonora dramática, gerando uma atmosfera assombrosa como um circo dos horrores. O cenário grotesco é justaposto com imagens de arquivo de ex-prefeitos da cidade falando sobre as medidas que tomaram para acabar com a cracolândia.

Utilizando argumentos contra o assistencialismo barato e pouco efetivo, o documentário consegue ironizar as promessas políticas e a ineficácia do governo. Mas tudo isso surge às custas da exploração pornográfica da miséria, que reduz seu objeto fílmico a sub-humanidade e com isso estabelece o pretexto para justificar a ação policial.

Reflexos da ausência do Estado

A crítica a assistência social, que se repete inúmeras vezes ao longo do filme, vai gradualmente tomando a forma de negação de qualquer apoio do governo. Embora seja razoável pensar que essa ajuda financeira por si só é ineficaz. E sem suporte adequado, vai apenas manter o usuário consumindo droga, o fator mais grave para o deputado é que o tráfico está sendo alimentado pelo dinheiro público.

Esse problema, para ele, legitima a negação dos direitos básicos da população em prol da única solução viável, a intervenção da polícia. No ato final isso é reforçado por um entrevistado que é levado a afirmar que o auxílio serve apenas aos dependentes do crack e aos traficantes, em detrimento dos cidadãos comuns que carecem de segurança pública. 

Dilemas narrativos

A partir do argumento central “ou a polícia invade, ou o crime organizado se estabelece” (deixando implícito que, nessa perspectiva, o segundo é muito pior do que o primeiro), seguimos uma série de abordagens violentas e dramatizadas no estilo Policia 24 horas.

Ao lado da tropa de choque em pleno conflito armado, Cukier, com uma GoPro amarrada no peito, narra a situação: “O choque está preparado para entrar. Para fazer a limpeza”. Nesses momentos transparece o desprezo dos realizadores pelos habitantes da região. Mesmo quando entrevistam um ou outro, têm sempre a única intenção de extrair informações que reafirmam sua perspectiva. 

O filme, em teoria, tem dificuldade em abordar um dilema criado por ele mesmo – separar o usuário do traficante, quando, em sua visão, o primeiro deve ser salvo e o segundo, morto. Na prática, não há sequer preocupação com essa separação quando o argumento é combate ao crime. Mas é na sua segunda metade, quando se faz um esforço para humanizar os viciados, que surge essa contradição.

Policiais invadindo uma residência ocupada em cena do filme.

Cracolândia e a busca por um olhar humano

Após toda a exibição da trágica “Sodoma” brasileira e da glorificação da polícia em seu papel de “libertador do pecado”, o longa finalmente resolve abordar a área como refúgio de pessoas marginalizadas pela sociedade e debater as dificuldades da reinserção social. Levando em consideração o preconceito, os fatores psicológicos e possíveis recaídas, se abre um importante debate a respeito dos métodos de recuperação comparando a internação compulsória e a redução gradual do uso. Mas é claro, não sem antes usar essa discussão como base de apoio para ironizar e desmoralizar um movimento social que atua na cracolândia levantando a bandeira dos direitos humanos. 

A entrevista com o membro do “Craco resiste” em contraste com os relatos de outras figuras opostas a presença deles no local, conduzem o espectador a conclusão de que os ativistas argumentam pela liberdade de escolha do indivíduo. E, portanto seriam a favor da existência da cracolândia e da manutenção do vício. Essa perspectiva problemática é naturalmente usada contra o movimento no documentário. Mas o intuito é claramente atacá-los como obstrutores da atividade policial que é a principal medida defendida pelo projeto do deputado paulista.

Mergulhando fundo na problemática

Na tentativa de aprofundar a questão sobre a recuperação dos usuários, Cukier resolve fazer jus a sua experiência internacional e leva a conversa para países como a Noruega, Suíça e os Estados Unidos, onde se enfrenta ou já se enfrentaram problemas similares.

Assim, ele se distancia ainda mais de uma realidade que só enxergava por câmeras de segurança ou atrás de escudos da polícia. Obviamente, lá o cientista político se depara com uma realidade muito distante. Recursos avançados e estruturas de auxílio social muito humanitárias que só são possibilitadas em países de primeiro mundo. Onde se pode fazer a manutenção dos seus problemas internos enquanto a miséria é exportada para as economias dependentes.

Em uma clínica destinada ao uso controlado de heroína, acompanhado por profissionais de saúde, o político tenta fazer uma pergunta moralista para uma enfermeira. Ele pergunta como ela se sente vendo essas pessoas usando drogas todos os dias. A entrevistada prontamente responde, quase o interrompendo, que são seus pacientes, são seres humanos, tem seus motivos e longas histórias de vida.

Tropa de choque posicionada na cracolândia em cena do documentário.

Particularidades da cracolândia brasileira

Retornando ao Brasil sem muitas conclusões, Cukier admite que é difícil comparar a realidade desses países com a nossa. Segundo ele, isso ocorre por causa da quantidade de pessoas em necessidade de atendimento. Além disso, o comportamento do usuário de heroína é muito menos violento e imprevisível do que o de um usuário de crack. Tornando difícil um acompanhamento tão tranquilo quanto o que as clínicas europeias oferecem.

Essa última ponderação coloca em questionamento a necessidade dessa longa sequência de filmagens no exterior para além da admiração do entrevistador com as nações estrangeiras. Afinal, o que os profissionais desses países concluíram não foi nada além da simples compreensão. É preciso aplicar diversas medidas de apoio ao mesmo tempo para efetivamente recuperar um indivíduo.

A resposta final

Ao final do documentário, é concluído que o problema da cracolândia é muito complexo. E requer um longo e contínuo trabalho para ser resolvido. O depoimento de um morador levanta o questionamento de que a região não é o problema, e sim a consequência de diversos fatores da sociedade. Essa compreensão ironicamente falta aos realizadores, que parecem enxergar causa e efeito em um único alvo onde se devem apontar as armas.

Por fim, Cukier reforça a necessidade da polícia “não permitir que as pessoas façam o que elas querem”, usando Nova Iorque como exemplo. Lá, entrevistou um oficial do NYPD (Departamento de polícia nova iorquino) que confirmou que eles agem com “tolerância zero” em relação as drogas. Pelo menos com o resgate dessa fala ele consegue justificar o orçamento utilizado na viagem do filme ao estrangeiro.

Teaser do documentário ‘Cracolândia’ (2020)

SINOPSE

A partir de uma intensa pesquisa – e visto através de diferentes realidades, a dos que a estudam, as dos que tentam contê-la e a dos que vivem nela, o filme abre um debate a respeito da maior e mais impactante cena de uso aberto de crack do mundo: a “Cracolândia” de São Paulo. O filme, dirigido por Edu Felistoque, analisa as causas desse mal e suas progressões. Além das táticas de combate já realizadas em São Paulo, abrindo um paralelo com as estratégias usadas em outros países.

FICHA TÉCNICA

Brasil / 87′ / 2020

Direção: Edu Felistoque

Características: Digital, colorido.

Linguagem: Português

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