“Papicha” é o longa de estreia da diretora Mounia Meddour e foi roteirizado pela mesma, em parceria com Fadette Drouard. O filme é inspirado em suas memórias de juventude vivendo na Argélia dos anos 90, período em que o país passava por uma guerra civil.

É exatamente nesse contexto que conhecemos Nedjma (Lyna Khoudri). Uma jovem universitária que, inquieta com os conflitos que sua terra natal enfrenta, se recusa a deixar que os mesmos a impeçam de sair com as amigas, levar uma vida normal e ter sua liberdade. No entanto, quando os radicais ganham força entre o povo e começam a aplicar diversos tipos de censura, inclusive contra as mulheres e suas vestimentas, Nedjma faz da sua paixão por design de moda uma forma de protesto, ao planejar um desfile com suas criações, algo extremamente polêmico e perigoso para a época em que vivia.

Papicha e um passado histórico desconhecido

Algo que me chamou a atenção nos primeiros minutos do filme, e continuou reverberando após o seu fim, foi o fato de não saber quase nada sobre o contexto histórico da obra. E como isso está diretamente a nossa educação eurocêntrica. Passamos anos estudando sobre países europeus, suas guerras, unificações e colonizações, porém pouquíssimo é falado sobre os continentes africano e asiático. E menos ainda sobre os países que integram seus territórios.

Após uma pesquisa, entendi melhor o momento específico retratado em Papicha. Conhecido como Guerra Civil da Árgelia, de 1991 e 2002, uma intensa luta armada entre o governo argelino e vários grupos de rebeldes islâmicos se instaurou no país, afetando toda a sua população.

Duas jornadas que se interligam

Apesar da falta de conhecimento, o filme possui uma maneira única de explicar qual era a situação naquela década. A jornada da protagonista se interliga com a ascensão de um governo autoritário e ambos se intensificam durante a narrativa. Logo no início podemos perceber viver naquele país não é fácil, pelas situações que Nedjma e suas amigas vivenciam, como encontrar com policiais brutos e fortemente armados nas ruas. Mas, apesar da revolta e do medo, elas continuam a viver suas vidas, cheias de sonhos e expectativas.

Com o passar do filme, os teocratas e seus ideias se tornam mais poderosos entre a população. Contudo, na mesma medida que suas ações se tornam mais invasivas e a vida de Nedjma se complica, a garota passa a tomar atitudes mais incisivas para defender a si mesma e outras mulheres. Essa disputa entre ambos os lados só se intensifica, até culminar no ápice da tensão do filme. Ela consegue realizar seu desfile-protesto, confrontando diretamente autoridades para isso. Mas tudo é destruído por um ataque terrorista, organizado por alguém que a conhecia e vem contestar sua rebeldia.

Papicha é um filme bem executado

Um dos fatores para esse ser um filme tão bem feito é o cuidado em relação ao que aparece, ou não, em cena. A começar pelos aspectos técnicos. Cada plano tem o seu significado próprio, até nos menores detalhes, e é perceptível como todos esses aspectos trabalham em conjunto para delimitar, em poucas cenas, a personalidade, as crenças e os sonhos de cada personagem e como tudo isso irá acarretar consequências para a vida delas, sem tornar a obra previsível.

Gostaria de abrir um parêntese aqui para destacar o aspecto sonoro do filme. Pois desde os pequenos sons de ambiência até as músicas constantemente presentes na narrativa, tem o poder de potencializar o que está sendo contado em tela e te envolver ainda mais dentro da narrativa.

A habilidade das mulheres

Além disso, também há muita sensibilidade na maneira com que essa história foi contada. Uma das belezas da obra é que ela não foca somente na guerra. Nos momentos de desespero, ela também mostra a vida daquelas mulheres, suas rotinas e sua poderosa amizade. Por conta dos assuntos abordados, o filme é cheio de cenas fortes e pesadas, mas Meddour soube representar esses momentos com precisão, sem sensacionalismos. Essas cenas não estão ali apenas para chocar o espectador. Elas auxiliam no desenvolvimento da narrativa e transmitem de maneira sincera uma representação da dor que as mulheres argelianas enfrentaram.

Vale ressaltar aqui a potência que são essas personagens femininas, representadas com maestria por grandes atrizes. Todas as personagens principais do filme são mulheres, portanto a história é contada pelas vozes que queriam calar. São elas quem tomam as decisões que fazem o filme caminhar, enquanto os personagens masculinos aparecem apenas para reproduzir discursos conservadores, representando a grande massa de opressão que não só o país, mas principalmente os corpos femininos vivenciaram nessa época.

Um filme difícil, mas necessário

“Papicha” pode ser descrito como um conjunto de retratos. Representações de um país dilacerado pela guerra. Trechos de vidas constantemente afetadas pela sede de poder. Uma denúncia sobre o controle de corpos, principalmente femininos, dos governos autoritários. Um impactante drama sobre uma mulher que teve seus sonhos dilacerados. E, acima de tudo, uma mensagem poderosa sobre empatia e a importância da união feminina.

Atenção: esse filme pode conter gatilhos como assédio sexual e violência doméstica.


Trailer: Papicha
Masterclass com Mounia Meddour

SINOPSE

Durante a Guerra Civil da Argélia, a jovem Nedjma decide lutar contra a opressão dos grupos terroristas que amedrontam o país. Para protestar, ela arrisca a própria vida para organizar um desfile de moda.

FICHA TÉCNICA

França/Bélgica/Catar/Argélia | 109′ | 2019

Direção: Mounia Meddour

Características: Digital

Classificação indicativa: 16 anos

Tags:

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *